Denúncias cresceram entre médicos e quase dobraram entre não médicos; especialistas relatam necrose, infecções, deformidades e sequelas permanentes após procedimentos invasivos
O avanço dos procedimentos estéticos no Brasil tem sido acompanhado por um aumento preocupante no número de complicações graves, muitas delas com risco de morte. Em São Paulo, dados do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) revelam crescimento expressivo nas sindicâncias relacionadas à área: entre médicos, a alta foi de cerca de 41% em dois anos; entre profissionais não médicos, o salto chegou a 90,3%.
Os números refletem uma realidade que já vem sendo observada com frequência crescente nos consultórios e hospitais. Pacientes chegam com necrose, infecções, cicatrizes, deformidades e até perda de função após passarem por procedimentos como preenchimentos faciais, modelagem corporal, aplicações de toxina botulínica e outras intervenções invasivas, muitas vezes realizadas por pessoas sem formação adequada ou fora de estruturas seguras.
Entre os médicos, o total de sindicâncias passou de 2.830, em 2023, para 4.002, em 2025. Já os casos envolvendo não médicos quase dobraram: foram 248 ocorrências em 2024, contra 472 no ano seguinte. Além disso, 44 ações judiciais relacionadas a procedimentos estéticos também foram registradas no período.
Segundo especialistas, a banalização da estética e a falsa sensação de simplicidade ajudaram a transformar intervenções delicadas em serviços vendidos como se fossem rotineiros e sem risco. Na prática, porém, o cenário é outro. Entre as complicações mais graves relatadas estão lesões em tecidos, falta de vascularização, assimetrias faciais, paralisias, infecções profundas e danos permanentes de difícil correção.
O cirurgião plástico Luiz Haroldo Pereira, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), afirma que o aumento das ocorrências traduz uma realidade já percebida no atendimento diário: pacientes estão chegando em estado avançado de complicações, muitas vezes depois de procedimentos feitos sem técnica adequada ou com substâncias proibidas.
Entre os casos mais alarmantes estão os relacionados ao uso de materiais como PMMA e silicone líquido, substâncias apontadas como altamente perigosas e capazes de provocar deformidades severas, reações inflamatórias intensas e até morte. Procedimentos como lipoaspiração e preenchimentos também aparecem entre os mais problemáticos quando realizados sem preparo técnico, podendo resultar em retirada irregular de gordura, necrose de pele e prejuízos funcionais.
A expansão acelerada do mercado ajuda a explicar parte do problema. O setor de estética movimenta cerca de R$ 40 bilhões por ano no Brasil e segue em crescimento, impulsionado pela alta demanda e pela forte influência das redes sociais. Nesse ambiente, procedimentos são frequentemente divulgados com foco apenas em resultados positivos, enquanto efeitos adversos e complicações quase nunca ganham visibilidade.
O problema, no entanto, vai além de São Paulo. Um levantamento nacional com mais de mil médicos brasileiros mostrou que mais de 12% dos pacientes atendidos por especialistas já haviam realizado procedimentos estéticos com profissionais não médicos. Em média, cada médico trata cinco casos de complicações por mês relacionados a esse tipo de intervenção, e cerca de 17% dessas ocorrências evoluem com sequelas permanentes.
Entre os profissionais mais citados nos casos que resultaram em complicações estão dentistas e biomédicos. Os procedimentos analisados incluem aplicação de toxina botulínica, preenchimentos, bioestimuladores, peelings profundos, microagulhamento, transplante capilar, lipoaspiração, uso de laser e enzimas. As complicações mais comuns relatadas foram cicatrizes, inflamações, infecções e necrose.
Além do impacto físico e emocional, os danos costumam exigir tratamento longo e caro. Em média, cada paciente precisa do acompanhamento de até três especialistas e de sete a oito consultas por ano, sem contar casos em que são necessárias cirurgias reparadoras e outras abordagens complementares.
Na avaliação de especialistas, a principal forma de reduzir riscos é a escolha criteriosa do profissional. A recomendação é buscar médicos qualificados, com formação específica e capacidade de diagnóstico e manejo de complicações. Para eles, procedimentos estéticos invasivos não podem ser tratados como práticas simples ou meramente comerciais.
O debate também ganhou dimensão regulatória. A Lei do Ato Médico, em vigor desde 2013, define como privativos dos médicos os procedimentos invasivos que envolvem maior risco e exigem capacidade técnica para diagnosticar e tratar intercorrências. Mesmo assim, o tema segue em disputa no país, com embates entre conselhos profissionais, decisões judiciais e pressão de entidades médicas por regras mais claras.
Diante do aumento das complicações, conselhos de medicina e sociedades médicas defendem maior fiscalização, regulamentação mais rígida e campanhas de conscientização para alertar a população sobre os riscos da estética feita sem segurança. O alerta é direto: o que muitas vezes é vendido como um procedimento simples pode terminar em internação, sequelas irreversíveis e, em casos extremos, morte.



