Burnout evidencia fragilidade das políticas de bem-estar nas empresas antes da entrada em vigor da nova NR-1

Após o aumento dos afastamentos, áreas de RH passam a rever iniciativas consideradas superficiais e começam a integrar a saúde emocional à gestão de metas, liderança e desempenho nas empresas.

Após o aumento expressivo dos afastamentos por burnout registrado em 2025, empresas brasileiras começaram a revisar de forma mais profunda suas políticas de bem-estar corporativo. O que antes era tratado como um benefício adicional passou a ser visto como um fator estratégico ligado à produtividade, à retenção de talentos e à reputação das organizações. Esse movimento ganhou ainda mais urgência com a atualização da NR-1, que entra em vigor em maio e reforça a necessidade de gestão estruturada dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho.

O novo cenário também expôs uma fragilidade nas iniciativas adotadas nos últimos anos. Muitas ações voltadas à saúde mental tinham grande visibilidade, mas pouco impacto estrutural. Ferramentas como aplicativos de meditação, semanas temáticas e campanhas de conscientização ajudaram a colocar o tema em pauta, mas não enfrentaram problemas mais profundos — como sobrecarga crônica de trabalho, metas desalinhadas e falhas na gestão de equipes.

Para especialistas, o debate sobre bem-estar corporativo evoluiu. O tema deixou de estar restrito a ações de engajamento e passou a exigir integração com a cultura organizacional, a definição de metas, os modelos de liderança e, agora, também com exigências regulatórias. A nova NR-1 coloca a saúde mental definitivamente na agenda estratégica das áreas de Recursos Humanos e Segurança e Saúde do Trabalho.

Segundo Hosana Azevedo, gerente sênior de RH da Redarbor Brasil, grupo responsável pela plataforma Pandapé, um dos principais erros das empresas foi tratar o bem-estar como uma campanha temporária.

“Não adianta oferecer benefícios se a rotina continua baseada em jornadas extensas e metas desconectadas da capacidade real das equipes. Bem-estar sustentável depende de coerência entre discurso e prática. A nova NR-1 reforça justamente isso: gestão estruturada, e não ações pontuais”, afirma.

A executiva destaca que dados internos são fundamentais para transformar boas intenções em estratégias efetivas — e, agora, também em conformidade com a legislação. Indicadores como absenteísmo, rotatividade voluntária, afastamentos médicos e resultados de pesquisas de clima organizacional ajudam a identificar áreas com maior risco antes que o problema se torne generalizado.

“Quando a empresa mede, ela sai do discurso e entra na gestão. Sem monitoramento contínuo, qualquer iniciativa acaba sendo reativa — e pode até se tornar um risco regulatório”, explica.

A tecnologia também passou a desempenhar papel importante nesse processo. Ferramentas de gestão permitem mapear a concentração de demandas, identificar períodos recorrentes de sobrecarga e apoiar decisões mais equilibradas na distribuição de tarefas, contribuindo para reduzir riscos psicossociais.

Entre as empresas que avançaram nessa agenda, algumas medidas já começaram a aparecer com mais frequência. Entre elas estão a revisão de metas trimestrais, políticas formais de desconexão digital e programas de formação de lideranças focados em gestão mais humanizada. Nesse contexto, o papel do gestor passou a ser central tanto para prevenir o esgotamento das equipes quanto para garantir resultados sustentáveis.

Outro ponto considerado essencial é a personalização das políticas de bem-estar. Programas padronizados tendem a ter baixa adesão, especialmente em ambientes com diferentes gerações e modelos híbridos de trabalho. Iniciativas adaptadas à realidade de cada área costumam gerar resultados mais consistentes.

Entre as práticas adotadas por organizações que avançaram nesse tema estão:
• jornadas de trabalho mais flexíveis
• maior autonomia no uso de banco de horas
• modelos estruturados de trabalho híbrido
• dias de pausa programados após ciclos intensos de entrega
• trilhas de desenvolvimento personalizadas
• apoio psicológico subsidiado conforme necessidade

Algumas empresas também passaram a permitir ajustes temporários na carga de trabalho em momentos específicos da vida do colaborador, como no retorno da licença parental ou durante períodos de cuidado com familiares.

“Flexibilidade não significa ausência de regras. Significa criar critérios claros que permitam adaptar a rotina às diferentes fases e contextos dos profissionais, sem comprometer os resultados”, afirma Hosana.

Para a executiva, o debate atual caminha para o conceito de produtividade sustentável. Embora equipes exaustas possam manter um alto nível de entrega no curto prazo, esse modelo dificilmente sustenta inovação e desempenho consistente no médio e longo prazo.

“O custo invisível do burnout costuma ser maior do que o investimento em prevenção estruturada. Consolidar políticas de bem-estar exige governança, métricas, revisão constante e alinhamento à legislação. Modismo gera ruído. Estratégia gera resultado”, conclui.