Estudo da Universidade do Sul da Califórnia mostra que episódios pontuais de consumo excessivo de álcool elevam fortemente o risco de fibrose avançada, sobretudo em pessoas com doença hepática gordurosa ligada à disfunção metabólica
Um novo estudo acendeu o sinal de alerta para um hábito comum entre pessoas que se consideram bebedoras moderadas: concentrar muitas doses de álcool em um único dia. Pesquisa divulgada nesta quinta-feira (2) pela Universidade do Sul da Califórnia concluiu que esse padrão de consumo pode triplicar o risco de fibrose hepática avançada em pessoas com doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, a MASLD, condição que afeta cerca de um em cada três adultos.
Publicado na revista Clinical Gastroenterology and Hepatology, o trabalho analisou dados de mais de 8 mil adultos dos Estados Unidos entre 2017 e 2023. Os pesquisadores compararam pessoas com consumo semanal semelhante de álcool, mas com padrões diferentes de ingestão, e encontraram um resultado claro: quem concentra grandes quantidades em um único dia ao menos uma vez por mês apresenta risco muito maior de desenvolver cicatrizes avançadas no fígado. No estudo, consumo episódico excessivo foi definido como quatro ou mais doses em um dia para mulheres e cinco ou mais para homens, ao menos uma vez por mês.
A pesquisa reforça que o problema não está apenas em quanto se bebe ao longo da semana, mas em como esse consumo acontece. Segundo os autores, mais da metade dos adultos avaliados relatou episódios desse tipo, e o comportamento foi mais frequente entre homens e adultos mais jovens. Os dados também apontaram que, quanto maior o número de doses ingeridas em uma única ocasião, maior a tendência de dano hepático.
O alerta ganha ainda mais peso porque a MASLD já é tratada como uma das grandes preocupações da hepatologia moderna. Em diretriz atualizada publicada em março, a American Gastroenterological Association recomenda rastreamento sistemático do uso de álcool em pacientes sob risco de MASLD e orienta limitar o consumo alcoólico como parte central do manejo da doença, ao lado de perda de peso, atividade física e controle de fatores metabólicos.
Apesar do cenário preocupante, outra pesquisa recente trouxe uma notícia de esperança para casos mais graves. Um estudo multicêntrico publicado no Journal of Hepatology mostrou que a abstinência sustentada de álcool permitiu recompensação hepática em cerca de um terço dos pacientes com cirrose alcoólica descompensada ao longo de cinco anos, com melhora importante do prognóstico.
Especialistas, porém, fazem uma ressalva importante: para pessoas com dependência alcoólica, parar de beber de forma abrupta pode desencadear síndrome de abstinência, com sintomas que vão de tremores, suor e ansiedade até convulsões e alucinações. Nesses casos, a orientação é procurar avaliação médica antes de interromper o consumo, para que a redução seja feita com segurança.



